Somos feitos de coisas que não voltam: Infâncias, pessoas, tardes de domingo e versões de nós que ficaram pelo caminho. A vida inteira cabe em pequenas cenas: uma mesa de café, uma canção distante. Um abraço demorado, alguém dizendo cheguei ao abrir a porta. No fim a vida, não pergunta quantos anos tivemos, ela pergunta quantos momentos realmente habitamos com o coração inteiro. Há uma beleza silenciosa em tudo o que se perde. A vida não é feita apenas do que permanece, mas, sobretudo, do que nos atravessa e parte. Carregamos no peito as ruas da infância, os abraços que já não existem, os domingos que terminavam devagar e as pessoas que fomos antes de a vida nos ensinar tantas coisas. Nada volta exatamente como era. E talvez seja esse o milagre e a dor de existir: Aprender que somos uma coleção de ausências transformadas em memória, de despedidas convertidas em maturidade e de versões antigas de nós mesmas que, mesmo deixadas para trás, ainda sussurram quem somos. No fim, viver é isso: Tornar-se casa de tudo aquilo que o tempo levou, mas o coração se recusou a esquecer. Minha cabeça tem muita fome de futuro. Ela fica o tempo todo pensando num certo amanhã, num amanhã em que seremos felizes e completas e não vamos mais precisar lutar por nada. E isso, além de ser meio triste, também é injusto, porque tira a minha chance de presente, de entender um pouco mais sobre quem eu sou agora. Às vezes, penso no meu passado, que certamente não foi perfeito, mas era cheio de pessoas, lugares e costumes que hoje me fazem falta. E também sinto uma saudade e um carinho por aquela que fui nessa época e que ironicamente se tornou tão inacessível quanto a que serei, apesar de a primeira ter realmente existido e a segunda ser apenas fruto de uma imaginação muito fértil. Penso que nesse passado, eu com certeza gastava muitas horas do meu dia fazendo exatamente o que faço hoje, idealizando o amanhã. E fico até meio envergonhada de admitir que de nada adiantou colocar tanta energia nessa ingênua idealização, porque tudo foi totalmente diferente do que eu esperava que fosse. E eu agradeço por isso.
— .(Escrito dia 10/06/2026, às 17:49).


Denunciar








